terça-feira, 2 de junho de 2009

Uma história real e emocionante...


No início do ano de 1997, eu e mais dois amigos montamos uma empresa que se chamou “P.O.Vox”, com o objetivo de atuar nas áreas de Internet e telecomunicações.
Eu havia acabado de me demitir da Embratel, cheio de idéias, vislumbrando um imenso mercado na área de "TI", que eu tão bem conhecia.
Afinal, eu tinha sido um dos integrantes do projeto que lançou a Internet no Brasil, em 1994/5.
Em uma visita à maior feira de informática da época, a Condex Falls, em Las Vegas, fechamos um acordo com uma empresa americana, chamada Baraka Intracom, para representá-la em toda a América do Sul.
Esta empresa havia desenvolvido um software de transmissão de vídeo compactado chamado VidViews, capaz de transmitir vídeos ao vivo através da Internet, coisa ainda inédita no mundo.
E tinha mais... Os internautas ainda podia se comunicar com quem estava transmitindo através de uma pequena janela de “chat”.
Por um acaso do destino, um dos meus sócios era amigo de um dos “astro-fotógrafos” da equipe do Planetário do Rio de Janeiro, e através dessa pessoa, o Diniz, que se tornou um dos meus grandes amigos, nós todos embarcamos numa aventura fantástica...
Fomos para Aruba transmitir um eclipse total do Sol, que acabou sendo a primeira transmissão de vídeo ao vivo feita na Internet em todo o mundo...
Segue a história contada pelo próprio Diniz, e como foram muitas as fotos, hospedei algumas em dois álbuns do Picasa, e podem ser vistas clicando AQUI.
Leia agora a história, segundo José Carlos Diniz Gonçalves...

Eclipse total do Sol, a aventura...

Exatamente às 14h 12m 54s , em Oranjestad ,a Lua se afasta e deixa escapar os primeiros raios do Sol. Terminara a totalidade!
A medida que a claridade voltava, iluminando as pessoas ainda estupefactas e silenciosas, uma cena, no mínimo insólita acontecia, três marmanjos aos prantos, pulavam, gritavam e se abraçavam.
Tinham motivo, acabavam de fotografar, filmar e transmitir via Internet o Eclipse de 26/2/98 em Aruba.
A história dessa aventura começou em fins de 1997, quando o responsável pelo grupo de astrofotografia da Fundação Planetário do Rio de Janeiro, o astrônomo Fernando Vieira sugeriu-me: Porque não vamos ao Eclipse?
O Marcomede Rangel esta organizando um grupo para a viagem, podíamos além de fotografar, transmiti-lo pela Internet.
O desafio foi aceito de cara e passei a coletar dados sobre como faze-lo. Conversa daqui ,conversa dali, pergunta a um , pergunta a outro e a coisa não andava.
Já tínhamos os dados do local, a hora, as cameras o "know how", mas a transmissão era o problema , que hardware? Que software? Como é que funciona?
Além de tudo era coisa de muitos dólares, onde arranjar financiamento?
Conversando com um cliente e amigo sobre o assunto, a surpresa, ele achou ótimo , tinha um novo software em desenvolvimento, que era representado por ele, e mais ,sua firma estaria interessada em arranjar parcerias para a empreitada.
Marcamos um papo, com chope é claro, e lá, Fernando e eu vendemos o peixe para meu amigo e seus sócios na P.O.Vox.
Entusiasmados partimos para discutir detalhes no Planetário e buscar parcerias para a aventura.
Era dezembro, muito tarde, o Brasil já havia parado esperando Papai Noel.
Eclipse? Nem pensar! A Air Aruba fez água, as passagens subiram, as pessoas desistiram da viagem, a Prefeitura não pagaria passagem de pacote turístico, ainda mais no carnaval!
O sonho iria por água abaixo. Puxa! Logo agora que arranjamos todo o material?
Diante da dificuldade, a ousadia. Eu pago a minha! A P.O.Vox paga a do Cláudio! (sabe tudo de computador).
A Baraka IntraCom (a dona do Software), paga os equipamentos e a passagem do Brian (representante da Baraka IntraCom e o mais brasileiro dos Ingleses) .
A essa altura resolvi pagar a da minha esposa , pois não iria ficar naquela ilha com 2 barbados a tiracolo.
Éramos um exército!
Correria, arranjar filtros, checar máquinas e cameras de vídeo, disparadores, lentes, bolsas, filmes, tabelas de exposição, páginas da Internet, artigos da NASA e do Fred Espenak etc. etc. etc.
Duas equipes representariam o Planetário, uma com Fernando Vieira e Jorge Marcelino iria para Maracaibo, na Venezuela às expensas da Prefeitura, e eu iria para Aruba com Cláudio (P.O.Vox) e Brian (Baraka), por nossa conta, a nós caberia fotografar, filmar e transmitir em tempo real pela Internet.
Viagem tranqüila; Rio - São Paulo (troca de avião) - Manaus - Caracas (troca de avião) - Curaçao (troca de avião)... ARUBA !!!
Cheguei ao Hotel a tempo de ser informado que teria que sair dia 1/3/98 (embora tivesse pago até 2/3/98) pois o hotel iria fechar para obras! Tudo bem , vamos em frente!
Terça feira encontro com Cláudio e Brian (vieram de Miami) e partimos para arranjar um provedor.
Procuramos a SETAR (Servicios Telefonicos de Aruba) falamos com o Sr Croes, e após explicar nossa missão, pedimos uma conexão com a Internet.
Ofereceu-nos apoio, uma sala para guardar o material, e o terraço do prédio para dali transmitirmos (maravilha !) porém dependia de superiores e só às 16hs nos daria a resposta.
Animados voltamos na hora marcada e o Sr Croes tinha ido embora!
Desolados, achando que tudo se perdera, fomos tomar um chope.
Dia seguinte às 7:30 hs estávamos na porta aguardando o Croes.
Chegou meio sem graça, se desculpando, mas confirmou a conexão, local de transmissão etc...
Iniciamos os testes com nosso computador e tudo funcionou bem. Fomos tomar 2 chopes!
Aruba é uma ilha pequena, mede 30 Km por 10 Km, não tem água, toda a água potável é obtida do mar, por dessalinizacao.
O vento é constante, e sopra a 40 a 50 Km/h sempre na mesma direção, por causa dele há uma árvore que é o símbolo da ilha , o Divi-divi que cresce um pouco e depois faz um angulo de 90 graus com o solo, sempre na direção do vento.
As principais fontes de sustento da ilha são o turismo e a refinaria de petróleo.
A população fala um dialeto chamado Papiamento que é uma mistura de holandês, espanhol, inglês e português. Você pensa que está entendendo tudo ,mas não entende nada.
Quinta-feira, dia do eclipse, tudo está diferente, o transito calmo fica caótico, todo mundo se deslocando, a maioria para Seroe Colorado, ao sul, onde a totalidade terá duração maior, lá ficarão os cientistas.
Todos procuram bons pontos de observação. O porto esta cheio de navios imensos e apinhados de gente de todo o mundo .
Grupos uniformizados saem em caravanas barulhentas com equipamentos e mais equipamentos, nunca vi tanto telescópio, tanta luneta , tanto tripé, e nós com o nosso humilde equipamento, quanta pretensão, quantos sonhos.....
Instalamos nossa tralha no terraço. Fios, cabos, tripés, cameras, mesa, cadeira, monitor, computador, cada um faz sua parte silenciosamente, tensamente. Ligamos o cabo, acionamos e ....nada!
O que está errado ? Checagem completa e nada! Nervosismo por toda a parte.
Achei !!! Ligaram após o fire-wall (seja lá o que for isso) berrou Brian. Agora vai! Ligar! Nada!
O computador teve sua configuração alterada. Como foi isso? Não sei , agora não interessa! Configurado! Ligar! OK Vamos lá pessoal !!! Monto as cameras de vídeo, o vento aumenta e as derruba, nossos tripés são pequenos para essa ventania, certamente é aqui que o vento faz a curva !
A ligação caiu!!! Como??? Procura de lá, procura de cá.... achei! A Porta! O fio vem do primeiro andar e com o vento a porta corta-incendio bateu e esmagou o fio! Arranja outro Croes, berra Cláudio.
Pronto, agora vai. É, acho que vai chover. Meu Deus, aqui, onde só chove 3 vezes por ano? Logo agora? Era verdade, nuvens cada vez mais carregadas se aproximavam rapidamente, tapando o Sol.
Sai nuvem !!! Gritava eu, consolado por minha mulher que querendo parecer forte esquecia de esconder as lágrimas.
E choveu! Escondemos o computador debaixo da mesa, protegemos as cameras e rezamos.
A parcialidade se aproximava. Pouco a pouco o tempo melhorou, havia muitas nuvens sempre apressadas, mas já se via céu no horizonte. Comecei a bater fotos seguindo um roteiro que decorei nos últimos dias.
Estamos no ar! Gritaram Cláudio e Brian.
Tínhamos anunciado na página do Planetário que para ver o eclipse, bastava baixar um programa grátis no site da P.O.Vox chamado VidViews, as pessoas que o fizeram estavam agora conectadas conosco.
Temos mais de trezentos ligados e as mensagens são muitas! Disse um Brian eufórico, enquanto Cláudio e eu fazíamos tomadas da paisagem e conversávamos com os internautas explicando cada passo, o que era um eclipse etc. etc. etc.
A parcialidade caminhava, as cores e as sombras modificavam-se pouco a pouco, nos envolvendo naquela coisa mágica.
Pessoas que trabalhavam no prédio aproximaram-se timidamente, oferecemos óculos de Mylar e demos explicações sobre o fenômeno.
Outros menos amigáveis nos disseram: Somos do Discovery Channel e vamos precisar de usar a maior taxa de transmissão possível, vocês não podem usar os 512K que estão planejando!
A partir dai nossa linha caia a toda hora, não tínhamos como competir com os poderosos.
A parcialidade aumentava. As 14h9m só uma pequeníssima parte do Sol era visível.
A luz, (como descreve-la?) era como se a maior tempestade já vista fosse desabar, no entanto havia sol no horizonte.
O vento mudou, vinha de todo lado ao mesmo tempo, como um prenúncio de algo terrível.
A temperatura caiu 3 graus! As pessoas se encolhiam , entre assustadas e maravilhadas.
Tempo! Preciso que marquem o tempo! Gritei. No silencio Cláudio contava os segundos, 40, 35, 30 Tirem o filtro!
A camera liberada gravava agora a entrada na totalidade.
As estrelas !! Alguém gritou. Não, são os planetas!! Tempo! Quero tempo! Faltam 10,9.8.7.6.5.4.3.2.1
Uau! Anel de diamantes! Pérolas de Bailley, Protuberâncias! Corona! Eram urrados por mim enquanto freneticamente fotografava, tentando manter a sanidade diante da visão do Sol negro, da luz louca e escura, do frio, do vento, das nuvens que teimavam em tapar o espetáculo, das pessoas que choravam, das que riam, dos fogos que espoucavam por toda parte saudando o mais belo dos fenômenos.
Como o tempo voa! Cecy! Está na hora, tire a foto que combinamos!
Estou tirando, estou tirando! Respondeu minha mulher chorando, quase de joelhos, enquanto esmagava o disparador. Perdi a foto, valeu a emoção.
Subitamente um brilho maior no lado direito, crescendo, crescendo, até explodir em luz e cores, tudo acabou em 3 minutos como por mágica.
Saímos das trevas e retornamos a luz, à vida . Não consegui pensar em nada mais que fosse nascimento, sim era isso, nascera, estava vivo e transmudado.
Olhei para os amigos de aventura que me disseram, CONSEGUIMOS !!!
Então nos abraçamos chorando e agradecendo a Deus cada segundo deste Eclipse solar.
Por José Carlos Diniz Gonçalves

0 comentários:

Postar um comentário

Vamos combinar o seguinte: você escreve o que quiser e se eu achar grosseiro ou inadequado eu apago tá?

Arquivo do blog